Coluna da Primogênita: História em Berlim

Berlim respira história. Sou mineira, passei a vida passeando por cidades históricas do meu estado e também fora dele, mas nunca o passado me causou tanto impacto quanto na capital alemã. Talvez pela brutalidade dos fatos ou por ser tudo tão recente! Não sei. O que sei é que conhecer Berlim envolve se chocar e se emocionar. É, sem dúvida, uma experiência única! Nesse post, conto quais foram os pontos mais marcantes para mim.

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Topografia do Terror

Localizado onde, no passado, era a sede da Gestapo – a polícia nazista – a Topografia do Terror é um centro de documentação onde se narra, cronologicamente, a história do regime através de fotos, textos, audios e vídeos. O objetivo é não deixar que as gerações atuais e futuras se esqueçam do terror vivido na Europa durante aqueles anos. Nos arredores, está um trecho bem preservado do muro de Berlim e, a céu aberto, há algumas exposições temporárias. Quando estive por lá, me comovi com uma sobre a cidade polonesa de Varsóvia, um dos alvos mais intensamente atacados por Hitler e seus colegas, que visavam removê-la completamente do mapa.

Neste centro de registros, vivi os momentos mais chocantes da viagem. Nada era novidade, já tinha estudado aquilo na escola, mas estar no local onde tudo aconteceu e a forma como a narrativa é feita é muito forte. Para quem se interessa por história é um passeio imperdível, apesar de difícil. Depois dali, cheguei a conclusão que ainda não sou preparada para conhecer um campo de concentração. Será que um dia serei? 

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Portal de Brandenburgo

Avistar o portal pela primeira vez me arrepiou! O local símbolo da reunificação alemã, com a queda do muro de Berlim é hoje, o principal cartão-postal da cidade.

Foto: Arquivo Pessoal

Na segunda grande guerra, o monumento foi bastante danificado e quando a Alemanha foi dividida, ele ficou com o lado oriental. Ninguém podia chegar perto: os alemães do lado Oeste tinham o muro no caminho. Os do Leste tinham a Stasi, polícia do regime comunista que mantinha o Portal isolado. Com isso, quando o muro caiu, muitos se dirigiram imediatamente para lá, o que deu a ele essa simbologia. Lembro do Pedro Bial cobrindo esse dia histórico e essa lembrança de quem, de alguma forma, vivenciou o momento traz arrepios. Quando penso que se passaram 25 anos daquele dia, me assusto com a velocidade que o tempo passa mas mais assustador que isso é pensar que o Pedro Bial trocou esse tipo de cobertura jornalística pelo Big Brother!! :)

Memorial do Holocausto

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

O Memorial aos Judeus Mortos na Europa ocupa uma extensa área no centro de Berlim e reúne 2711 blocos de concreto, de diferentes tamanhos e alturas, sobre uma superfície ondulada, por onde se pode caminhar, geralmente de uma forma instável. Presta homenagem aos seis milhões de judeus mortos pelo regime nazista e pelo fato de excluir outras minorias também perseguidas por Hitler e seus adeptos, dentre eles, os homossexuais, o Memorial já foi bastante criticado. O que me chamou atenção é o tamanho da área que ocupa, bem no centro da cidade, valorizando a história e o sentido de homenagem frente a todas as pressões imobiliárias. Digno de aplausos, no mínimo.

Museu Judaico

Por último, mas não menos importante, eu deixei um dos museus mais fantásticos que já visitei! Aqui, a história do judaismo é revisitada, desde a antiguidade até os dias de hoje, e isso por si só, já é bastante interessante, mas convenhamos, museus judaicos existem em várias capitais do mundo. O que torna o de Berlim tão especial é o projeto do New Building, projetado pelo arquiteto Daniel Liebskind, que tem a intenção de despertar nos visitantes, sensações experimentadas pelos judeus nos anos de perseguição do nazismo, a partir de elementos arquitetônicos.

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Tentarei descrever um pouco do museu para que eu possa tentar mostrar o tanto que ele é sensacional!

Composto por dois edifícios, um em estilo clássico e antigo e outro moderno, com fachada de zinco e titânio , ambos se conectam através de uma passagem subterrânea, sendo impossível, do lado de fora, entender a conexão entre os dois prédios. O novo, projetado por Liebskind, tem um formato em ziguezague, e as janelas são dispostas de tal maneira em que não se consegue calcular a disposição dos andares.

Fonte: www.jmberlin.de
Fonte: http://www.jmberlin.de

Mas é no seu interior, que o museu é tão fascinante!

O projeto dispõe os espaços nas formas de eixos (“axis”) e de espaços vazios (“ voids”).

Os voids são espaços centrais, contornados por paredes de concreto, vazios, com pés direito altíssimos, que despertam algum tipo de sensação, de acordo com a proposta de cada. Em um deles, o “Memory void”, o artista plástico israelense Menashe Kadishman criou a instalação denominada Shalekhet (folhas caídas), onde distribuiu várias máscaras de aço por todo o chão do espaço. Cada máscara tem uma expressão facial diferente, fazendo uma alusão aos judeus mortos e o visitante, ao andar sob elas, produz sons, estalidos e ecos que despertam angústia e tristeza.

Os eixos são linhas horizontais que conectam as diferentes áreas de exposição do museu. São três principais:

Eixo da Continuidade: conecta o prédio antigo ao novo e termina em uma escada enorme. Por ela, passam transversalmente vigas de concreto inclinadas que (lembro bem da aula de faculdade) servem para causar desconforto e claustrofobia, sentimentos muito comuns aos judeus durante os anos do nazismo na Europa.

Fonte: www.jmberlin.de
Fonte: http://www.jmberlin.de

Eixo do Holocausto: conduz ao Void Holocausto, um ambiente de paredes cinzas, altas, sem nenhum aquecimento, onde é possível escutar os ruídos das ruas ao redor. O visitante sente o frio, a sensação de isolamento relacionando com os campos de concentração.

Eixo da Emigração: leva o visitante ao Void do Exílio, na minha opinião, o local mais fantástico do museu. Nele, o visitante caminha por entre cubos e paralelepípedos de concreto, em um piso de pedras irregular, a céu aberto. O frio, a sensação de desorientação e instabilidade provocam mal estar e por vezes, até mesmo náusea, sensações experimentadas por milhares de judeus removidos brutalmente das seus domicílios. 

Não é um museu fácil de ser visitado mas também não me trouxe tanta tristeza quanto a que senti na Topografia do Terror. Talvez porque as exibições mostram também os aspectos positivos da história do povo/religião, suas conquistas, seus personagens mais conhecidos, o que equilibra um pouco tantas sensações desagradáveis.O que posso dizer, com certeza, é que entrou na minha lista de museus preferidos, não só pela arquitetura brilhante mas pela capacidade super original do arquiteto de honrar o seu povo!

História sempre foi a minha matéria favorita na escola e sempre me emociono ao senti-la in loco, independente se bonita ou triste, afinal de contas, ambos os sentimentos são parte natural de nossas vidas! E por isso, entre outros motivos, achei Berlim tão incrível!

 

Publicado por

Primogênita

Médica dermatologista,formada pela UFMG, sempre tive muitos interesses, tanto que antes da Medicina, fiz dois anos de faculdade de Arquitetura, a qual a vida toda tinha a convicção que seria minha profissão. Mas a prática muda nossas certezas, tomei um rumo profissional mais feliz, porém mantenho a minha paixão, agora como admiradora, do mundo da arquitetura,do design e do urbanismo. E mais a gastronomia, o cinema, os livros, a fotografia, toda essa miscelânia, me impulsiona a sempre querer viver, conhecer e viajar mais! E uso esse espaço que me foi oferecido pela minha irmã e grande amiga, Vivi, para compartilhar as minhas experiências! Muita responsabilidade colaborar para um blog que eu sou tão fã, mas espero que gostem e que dividam também as suas dicas de viagens! Ah,e o meu nome é Isabela, mas podem me chamar de primogênita!

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