Na Estante: Patti Smith, “Só Garotos”

O que fazer quando algumas das certezas que você tem na vida são seriamente questionadas? Como se reage a isso?

Não, eu não penso que, no auge dos meus 27 anos, eu tenha crenças que jamais serão mudadas. Mas, ainda mais por ser metida a sabichona, sou convicta de certas coisas, como: não acredito em alma gêmea, pessoas que foram feitas umas para as outras, entre outras. Essas, especificamente, foram colocadas em cheque ao ler o maravilhoso “Só Garotos”, da Patti Smith, vencedor do Prêmio Nacional do Livro dos EUA, em 2010.

Capa do “Só Garotos”

Isso não é exatamente surpreendente, visto que a autora do livro é aquela pessoa que apareceu para o mundo da música com a frase: “Jesus died for somebody’s sins but not mine” (ou “Jesus morreu pelos pecados dos outros, mas não pelos meus”). Questionamento é algo muito esperado ao se pensar na grande mulher da história do punk rock.

Patti e Robert

Ela prometeu ao seu antigo namorado, melhor amigo, companheiro, confidente, o fotógrafo Robert Mapplethorpe, escrever a história dos dois, pouco antes dele morrer. O resultado disso é uma obra tão incrível que me fez demorar mais de um mês para comentar a respeito dela. Simplesmente, porque nada parecia ser bom o suficiente.

Patti Smith foi capaz de escrever sobre uma das épocas mais interessantes da história mundial com uma leveza que me dava a sensação de que ela me contava a sua vida, dentro do Chelsea Hotel, tomando chá.

Isso mesmo, a sensação era a de que tomávamos uma xícara de chá enquanto ela revelava um mundo de arte, poesia, drogas, rock, amor, álcool, amizade, fome, pobreza, sadomasoquismo, homo e heterossexualidade, que envolvia a Nova York nos anos 60 e 70.

“Só garotos” é um dos livros que eu não somente agradeço por ter gastado o meu escasso dinheirinho, mas que acabei achando que tinha gasto muito pouco com algo que mexeu tanto comigo. Ao ponto de mudar a minha forma de leitura: eu costumo ler rápido, ainda mais quando o livro é bom. Devorar é a palavra adequada. Ele, desde o início, eu li devagar. Aproveitando e digerindo tudo aquilo que ela queria transmitir. E curtindo demais seus relatos com Jim Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan, entre outros. Através do livro, pude viajar a Paris e Nova York de forma jamais feita. Porque sim, como se tudo que relatei antes ainda não fosse suficiente, o livro também é uma bela ode à cidade de Nova York, principalmente, e também a Paris, a França. Era pra acabar comigo, né?

Respondendo às perguntas que fiz no início desse post: eu reagi aos prantos, principalmente no final do livro. Literalmente, encerrei minha leitura debulhando em lágrimas. E percebendo o quanto pode ser bom ter as nossas certezas balançadas, ainda mais de uma forma tão bonita e delicada quanto a Sra. Smith fez por mim. Não, eu não passei a ser uma crente em uma pessoa nasce para outra; o que “Só Garotos” fez por mim foi mostrar o quão belo isso pode ser quando acontece. Quando a exceção à regra é exposta da forma que foi, só me restou contemplar e admirar.

Bom, acho que não preciso dizer que recomendo “Só Garotos” com todas as minhas forças né?

Porém, continuo achando que o meu comentário continua não fazendo jus ao livro, mas um dia eu tinha que escrever alguma coisa.

Finalmente, se alguém chegou ao final desse post se perguntando “Quem é Patti Smith?”, segue a apresentação da música mais famosa dela, Because The Night (não, ela não pertence ao 10.000 Maniacs). Se após vê-la, a sua reação for: “nunca ouvi”…. Sério, você acabou de perder uns 50.000 pontos comigo.

Ps1: Não é que, ao escrever esse post, eu descobri que a música “Suddenly I See” da KT Tunsall foi inspirada na Patti Smith? Não sabia e passei a gostar mais dela depois dessa.

Ps2: O programa Milênio, da Globo News, entrevistou a Sra. Smith. Segue os links do blog, que tem a entrevista principal, além de trechos extras. Vale a pena demais, mas eu preferi guardar e ver após acabar de ler o livro, claro. Aqui, aqui e aqui.

Volto mais tarde | Ao som do disco Easter, da própria Patti Smith.  |

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16 pensamentos sobre “Na Estante: Patti Smith, “Só Garotos”

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    • Oi Rê!
      Bom, foi o que eu falei no post. Super recomendo. E sim, ele me emocionou bastante. Tipo, até agora não li nenhuma crítica puramente negativa ao livro. Em geral, a Patti Smith conseguiu emocionar bem seus leitores, então…..

      Beijos

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  7. Tenho que concordar com Dona Clarice. Você conseguiu me dar muita vontade de ler esse livro. Geralmente eu entendo seu ponto de vista, mas não consegue me convencer a “adotar seu gosto”. Bom, acho que sobre música nunca vai (heheheh fui mau agora), mas sobre literatura… tiro meu chapéu.

    Sabe no que eu pensei? Se o jornalista fosse formado da forma utópica que eu e mais alguns acreditamos, você estaria empregada agora. Como é essa forma? Bom, eu acho que a faculdade de jornalismo não deveria existir. Ela deveria ser uma pós-graduação gorda (tipo 2 ou 3 anos). Você se gradua em qualquer área e depois aprende a ser “especialista” desse campo usando a comunicação. Com certeza teríamos matérias muito mais ricas, opiniões muito mais pungentes, não teríamos a famosa busca pela “verdade” (que semioticamente falando, a meu ver não existe) que os jornalistas tem e com certeza não teríamos esse monte de bobagem dita a cada minuto. Afinal os jornalistas são obrigados a saber tudo sobre tudo. Como não é possível, abam sabendo quase nada sobre tudo. E pior é que formam mesmo a opinião do povo, que fica muuuuuito bem formada.

    Por que eu dei essa volta? Porque eu percebi seu olhar sobre o outro na sua crítica. Conceitualmente, antropologicamente, psicologicamente, sociologicamente e espacialmente. Acho que obviamente tem a ver com a sua formação. Consciente ou não, você acabou passando seu ponto de vista de maneira sutil e inteligente, deixando pessoal e por isso tão convincente. Bela tática / construção de texto. Como disse no início, desta vez sua personalidade e estilo venderam o peixe. Continue assim…

    ;)

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    • Oi Bruno,

      Nossa, muito obrigada pelo seu comentário. Fiquei lisonjeada ao lê-lo! Obrigada mesmo!!

      Ah, não se preocupe: a questão do não-convencimento musical é recíproco! hehehe

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Comentários

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